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O que acontece com as transformações do “fazer família”?
O “fazer família” se transforma.

Há várias maneiras de pensar a noção de família em transformação. A que se impõe hoje constata as mutações da organização social do que ainda era o modelo tradicional patriarcal, referência na época em que Freud fundou a psicanálise. O modelo da família burguesa nuclear de tipo patriarcal monógamo, com o casal parental — pai, mãe e filhos — transforma-se. As famílias estão em transformação. Encontram-se numerosas famílias decompostas, recompostas, mosaicas, famílias monoparentais, famílias homoparentais e famílias com filhos adotados ou nascidos.

Por procriação medicamente assistida, famílias mestiças de culturas e migrações diferentes. Por exemplo, em uma família mosaica recomposta, diferentemente da família tradicional, encontraremos várias figuras parentais homogêneos ou heterogêneos, fratrias mosaicas, desconstruídas com crianças provenientes de filiações plurais. As crianças podem viver simultaneamente ou sucessivamente sequências de vínculos com parentalidades e fratrias múltiplas. Vínculos familiares novos se criam com padrastos, madrastas, meio-irmãos, os “jujus”, quando não há nome para nomeá-los... Até os anos 1960, o ritual do casamento era organizador. As crianças nascidas fora do casamento, filhos naturais, bastardos, eram declarados “sem-família”. Hoje, a criança se torna organizador do “fazer família”. Essas novas famílias mosaicas “fazem família”, reunindo os pedaços de famílias. O que caracteriza o “fazer família” contemporâneo é a aceleração e o tipo de transformações das configurações familiares.

Para mim, o caráter paradigmático dessas transformações é sintomático de uma desdiferenciação do vínculo social e do vínculo familiar intergeracional. Isso me parece contemporâneo de nossas organizações sociais em transformação. O vínculo de afiliação horizontal parece, cada vez mais, tomar o lugar do vínculo filiativo.

Uma questão interpela-nos: essas novas organizações familiares manifestam-se por meio de novos sintomas? Elas conduzem a uma nova clínica? O que acontece com os invariantes, universais psíquicos e os tipos de mudança? Para nós, terapeutas psicanalíticos, a transformação da família diz respeito às representações do “fazer família” e à economia psíquica individual e grupal familiar no enquadre da terapia. As transformações questionam os aspectos genéticos, tópicos, econômicos e dinâmicos e os tipos de mudança entre eles se referem à organização dos vínculos de filiação e de afiliação ou apenas às reorganizações da relação.

Numa perspectiva psicanalítica dos vínculos, todas as modificações familiares correspondem a novas configurações do que chamo de malhagem genealógica. Se essas mudas de continentes genealógicos referirem-se a novas configurações familiares, haverá emergência de uma nova clínica?

Extraído do livro "Malhagem, Filiação e Afiliação", Pierre Benghozi

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