Existe receita para um cérebro mais feliz?

Estudos científicos têm mostrado que a meditação diária aumenta muito a capacidade psíquica e cerebral de autossatisfação

Quem dera houvesse um caminho comprovadamente eficaz para ser feliz... Afinal, o conceito de felicidade pode variar muito de uma cultura ou mesmo de uma pessoa para outra. No entanto, cada vez mais cientistas se arriscam a dizer que há uma boa chance de ampliar significativamente a capacidade de autossatisfação – independentemente do que nos aconteça na vida. As instruções são bastante possíveis de serem seguidas por qualquer pessoa, até mesmo crianças pequenas: sentar-se numa posição confortável, com a coluna reta (embora não tensa) e prestar atenção na própria respiração por alguns minutos, sem se apegar a sentimentos, julgamentos ou pensamentos que apareçam. A ideia é não “brigar” ou tampouco se apegar a qualquer coisa que surja. O que fazer, então? Apenas “deixá-los passar”, sem recriminações e voltar a atenção para as narinas, se atendo ao ar que entra por elas durante a inspiração, devendo ser conduzido até o abdômen e depois lentamente expirado também pelo nariz. 
 

Só isso?, poderia perguntar um leitor incrédulo. Não!, responderiam, enfáticos, os pesquisadores. Há um “detalhe” que faz toda a diferença: é preciso persistência para repetir o procedimento dia após dia. Curiosamente, é muito provável que a “receita” cause estranhamento justamente porque não requer grandes aparatos, condições raras para praticar, longo tempo de treinamento prévio ou um conhecimento aprofundado da técnica. Pelo contrário: o mais importante é querer, sentar e respirar por alguns minutos seguindo as orientações do parágrafo anterior. Melhor: não custa nada e não precisa de habilidades específicas. A simplicidade do método, no entanto, pode deflagrar desconfiança, pois, muitas vezes, nos sentimos mais atraídos pela complexidade e sofisticação do que pela responsabilidade sobre nosso próprio bem-estar. A despeito disso, a prática diária da meditação talvez seja o que, do ponto de vista neurocientífico, a forma mais eficiente e acessível de obter bem-estar físico e mental de maneira prolongada, sem contraindicações ou uso de substâncias químicas. É magia? De forma alguma: a ciência reconhece hoje que a meditação reconstrói a massa cinzenta cerebral. Isso significa que meditar frequentemente – sentar, esquecer o mundo fora de nós e colocar atenção na respiração – tem efeito sobre a matéria orgânica.
 

De bom humor
 

Técnicas sofisticadas de pesquisa, como a ressonância magnética funcional, mostram que várias estruturas neurológicas são modificadas com a prática. É o caso da área cortical, situada na parte mais anterior do cérebro, do cíngulo anterior e da ínsula cerebral. Em geral, a meditação frequente promove o aumento da espessura cortical, o que significa que ocorreu um aumento do prolongamento de células nervosas nas conexões sinápticas dessas regiões. Outra mudança anatômica são as alterações nas vias que ligam algumas dessas estruturas a outros centros nervosos. Tudo isso modifica a dinâmica cerebral: algumas funções se tornam mais ágeis, enquanto outras são inibidas. Ou seja: a meditação torna o cérebro capaz de interagir de maneira menos reativa e programada aos estímulos internos ou externos – o que, entre outros benefícios, traz a redução do estresse.
 

A prática também favorece a capacidade de aprendizagem e concentração, ajuda a perceber melhor as próprias emoções e a lidar com elas. Acessível a qualquer pessoa, a técnica usada há centenas de anos por religiosos tem se mostrado uma poderosa ferramenta no combate de depressão, ansiedade, hiperatividade, dor crônica, inflamações e envelhecimento das células. Mas isso basta para ser feliz? Estudos realizados na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, por exemplo, mostraram que áreas cerebrais associadas ao bom humor podem ser mais ativas em adeptos do budismo.
 

Os resultados da investigação, realizada com técnicas de neuroimagem e mapeamento neurológico, coincidem com os de outra similar, conduzida por cientistas da Universidade da Califórnia (UCLA). Eles comprovaram que a meditação afeta o funcionamento da amígdala – um feixe de estruturas interligadas, em forma de amêndoa, acima do tronco cerebral e perto da parte inferior do anel límbico –, envolvida no funcionamento da memória e de emoções como empatia e medo.
 

“A meditação provoca sensações de calma e bem-estar. A hipótese mais racional para esse efeito é a de que há algo na prática consciente do budismo que resulta em felicidade”, afirma o doutor em psicologia Paul Elkman, que coordenou a pesquisa na Califórnia. Os testes realizados na Universidade de Wisconsin com monges budistas experientes na meditação identificaram elevado grau de atividade nos lobos pré-frontais, relacionados às sensações de bem-estar, consciência de si mesmo, equilíbrio, autonomia e tranquilidade.
 

“Já existem algumas evidências de que, graças ao seu potencial de melhorar o bem-estar geral, a meditação pode colaborar na redução de inflamações e outros estresses biológicos que ocorrem em nível molecular”, afirma o neurocientista Richard J. Davidson, pioneiro da ciência da meditação como diretor do Laboratório Waisman para Imageamento Cerebral e Comportamento e do Centro para Investigação de Mentes Saudáveis na Universidade de Wisconsin-Madison. Um estudo colaborativo entre o grupo do qual é um dos coordenadores e outro, liderado por Perla Kaliman, do Instituto de Pesquisa Biomédica de Barcelona, revelou que, em meditadores experientes, um dia de prática intensiva de meditação de atenção plena diminui a atividade de genes associados a inflamações e altera o funcionamento de enzimas envolvidas com ativar e desativar genes.
 

Outro estudo conduzido pelo neurocientista Cliff Saron, também da Universidade da Califórnia, analisou o efeito da meditação em uma molécula envolvida na regulação da longevidade de uma célula. Trata-se de uma enzima chamada telomerase, que alonga segmentos de DNA nas extremidades de cromossomos. Esses segmentos, denominados telômeros, garantem a estabilidade do material genético durante a divisão celular. Eles ficam mais curtos toda vez que uma célula se divide e, quando seus comprimentos atingem um tamanho inferior a um limiar crítico, a célula para de se dividir e gradualmente entra em um estado de senescência (envelhecimento). Em comparação com os participantes de um grupo controle, os meditadores que apresentaram as reduções mais pronunciadas de estresse psicológico também tiveram atividade mais elevada da telomerase no final do retiro. Essa descoberta sugere que o treinamento de atenção plena desacelere processos de envelhecimento celular em alguns praticantes.
 

Em mais de uma década de pesquisa foi possível constatar que a meditação produz mudanças significativas tanto na função como na estrutura do cérebro de praticantes experientes. “Embora sejam necessários mais estudos (com ensaios bem-definidos e randomicamente controlados) para isolar efeitos associados à meditação de outros fatores psicológicos que podem influenciar o resultado, o que conseguimos até agora já indica que práticas contemplativas podem ter impacto substancial em processos biológicos essenciais para a saúde física”, afirma Davidson. 
 

Esse é o jogo!
 

Mas, então, é só isso? Basta meditar para ficar mais fortalecido emocionalmente e, consequentemente, menos vulnerável aos efeitos do estresse, aos acessos de raiva, ansiedade e insegurança? Sim. Mas não é tão simples. Para obter resultados é preciso praticar. Em outras palavras, os benefícios precisam ser alcançados com o treino diário, começando com poucos minutos e aumentando gradativamente o tempo da prática até chegar a cerca de meia hora por dia. Acostumar a mente a estar no aqui e no agora, trazer a atenção à respiração de volta cada vez que ela se dispersar, centrar-se de novo na respiração – e de novo e de novo. Esse é o jogo. O cérebro responde após algumas semanas e, na prática, a qualidade dos dias se transforma gradativamente. E isso exige bem menos tempo do que grande parte das pessoas passa em frente à televisão ou entretidas com redes sociais.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição 2016 de setembro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/2cjymOS