Dores e Sofrimentos entre Jovens e Adolescentes: Automutilação e Suicídio
Em 26 de abril de 2019 foi instituída no Brasil a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, de acordo com a Lei no 13.819. Dentre alguns objetivos da lei citado no artigo 3º, destaca-se: “VII - promover a articulação intersetorial para a prevenção do suicídio, envolvendo entidades de saúde, educação, comunicação, imprensa, polícia, entre outras” (RIO GRANDE DO SUL, 2019). Essa política ratifica a notificação compulsória, ampliando a obrigatoriedade também aos profissionais da educação.
É muito importante que, ao atender ou lidar com adolescentes com tentativa de suicídio, as notificações sejam efetuadas, pois, além de acionar a rede de equipamentos para o acompanhamento, os registros dessas notificações nos revelam a realidade da situação e podem contribuir com a criação de políticas públicas para lidarmos com essa problemática.
São inegáveis o sofrimento mental e as várias adversidades enfrentadas por muitos adolescentes. No entanto, é preciso tomar muito cuidado ao olhar para essa população e adotar a devida cautela para não caracterizar a adolescência pela ótica unilateral de risco, vulnerabilidade e fragilidade.
Você sabia que existem alguns mitos sociais sobre o suicídio?
O Guia Intersetorial de Prevenção do Suicídio em Crianças e Adolescentes (RIO GRANDE DO SUL, 2019) nos apresenta alguns. Confira a seguir:
Mito 1: O suicídio é uma decisão individual, já que cada um tem pleno direito a exercitar o seu livre-arbítrio.
Realidade 1: As pessoas em risco de suicídio estão passando, quase invariavelmente, por uma situação de crise que pode alterar a sua percepção da realidade, interferindo em seu livre-arbítrio. O acompanhamento em saúde e o tratamento de um transtorno mental, quando presentes, são pilares fundamentais na prevenção do suicídio. Nós entendemos que a conexão social e a coletivização do cuidado também são fatores primordiais
Mito 2: As pessoas que ameaçam se matar não farão isso; querem apenas chamar a atenção.
Realidade 2: A maioria das pessoas que tenta o suicídio fala ou dá sinais de suas ideias de morte.
Mito 3: Quando um indivíduo mostra sinais de melhora ou sobrevive a uma tentativa de suicídio está fora de perigo.
Realidade 3: Uma tentativa prévia é o principal fator de risco para o suicídio. Os períodos mais críticos são quando a pessoa está melhorando da crise que a motivou a tentar e quando a pessoa ainda está no hospital, na sequência de uma tentativa. A semana que se segue à alta hospitalar é um período em que a pessoa está particularmente fragilizada.
Mito 4: Não devemos falar sobre suicídio, pois isso pode aumentar o risco.
Realidade 4: Falar sobre suicídio não aumenta o risco, muito pelo contrário. Falar com alguém sobre o assunto pode aliviar a angústia e a tensão que esses pensamentos trazem.
Mito 5: Apenas pessoas com transtornos mentais têm comportamento suicida.
Realidade 5: Muitas pessoas com transtorno mental não desenvolvem comportamento suicida, e nem todas as pessoas que morrem por suicídio têm transtorno mental. Comportamento suicida indica profundo sofrimento, não necessariamente transtorno.
Mito 6: Quem planeja se matar está determinado a morrer.
Realidade 6: Ao contrário: existe ambivalência, existe o desejo de viver e morrer. A pessoa muitas vezes não deseja a morte, mas uma saída para o seu sofrimento. Por isso, o acesso a suporte emocional no momento certo pode prevenir o suicídio.
Uma vez desconstruídos os mitos, vamos visitar os fatores de risco e de proteção do suicídio. De acordo com a OMS (2000) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (2014):
Fatores de risco
* Baixo nível socioeconômico;
* Inadequação às características relacionadas ao gênero e questões relacionadas à identidade e orientação sexual, em função da LGBTfobia;
* Tentativa prévia de suicídio;
* Famílias disfuncionais;
* Violência intrafamiliar (abuso físico e sexual);
* Bullying;
* Morte dos pais/cuidadores;
* Abuso de álcool e de outras substâncias;
* Humor instável, raiva e impulsividade;
* Baixa tolerância à frustração;
* Ter sofrido algum tipo de trauma
Fatores de proteção
* Bom relacionamento e apoio familiar;
* Habilidades e relações sociais;
* Confiança em si mesmo;
* Capacidade de procurar ajuda;
* Integração social, como esportes, igreja, clubes, entre outras atividades;
* Bom relacionamento com colegas da escola;
* Bom relacionamento com professores, entre outros adultos de referência.
Você conhece os sinais de alerta para o comportamento suicida na adolescência? O Guia Intersetorial de Prevenção do Suicídio em Crianças e Adolescentes (RIO GRANDE DO SUL, 2019) nos apresenta alguns deles:
* Preocupação com sua própria morte ou falta de esperança;
* Expressão de ideias ou de intenções suicidas;
* Diminuição ou ausência de autocuidado;
* Mudanças na alimentação e/ou hábitos de sono;
* Uso abusivo de drogas/álcool;
* Alterações nos níveis de atividade ou de humor;
* Crescente isolamento de amigos/família;
* Diminuição do rendimento escolar;
* Autoagressão: mudanças no vestuário para cobrir partes do corpo (usar blusas de manga comprida) ou resistir em participar de atividades físicas que envolvem o uso de shorts ou roupas de banho
É possível citar ainda: tristeza profunda e duradoura; sentimento de menos-valia; desejar uma tragédia ou se colocar em risco; interesse por meios letais; discursos de despedida; falas como “ando pensando em besteira”, “queria dormir e não acordar mais”, “não aguento mais essa dor”, “quero morrer”, “vou me matar”.
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